Revém

“Não vemos as coisas como elas são, vemos como nós somos” (Anais Nïm)

 

Tacet – 2013

 

REVÉM é uma palavra que pode trazer em si inúmeras referências: trata-se do revir, voltar. Em conjugação, na terceira pessoa do singular, algo que revém retorna, (re)volta, conduz-se novamente a um estado de origem. É, por associação, relativa ao rever, ver-se outra vez, espelhar-se, refletir-se. Por sinal, REVÉM ao reverso é ME VER, exatamente como em frente a um espelho. Mais além, faz analogia ao francês rêve, do sonho, do delírio e do inconsciente. É a esta pequena palavra, verbo flexionado, que delego a síntese do que faço.

Entendo a obra de arte como um espelho que revém, com mais ou menos nitidez, a imagem de quem o observa. Cada reflexo mostra não apenas como, mas também quem somos. Diante de uma obra de arte, projetamos nela nossa própria identidade, história e valores, e é o resultado deste retorno inconsciente de significações que compreendo como gosto.

Apesar da pós-modernidade muitas vezes pressupor o contrário, nem sempre é essencial uma descrição que sirva de intermediário entre o que vemos e o que sentimos. Podemos alcançar a totalidade de uma determinada obra de arte simplesmente pela capacidade de rever-nos nela mesma em maior ou menor grau, sem a necessidade que compreendamos cada aspecto de sua existência. A necessidade indiscriminada da problematização pode se tornar um entrave para um fruir mais verdadeiro e profundo.

Em meus trabalhos, sinto-me como um criador de espelhos, onde meu propósito é trabalhar com exaustão a matéria até que me reveja nela com nitidez plena, sem a preocupação em contar uma história ou comunicar uma mensagem, assim também estimulando no observador a cultura quase perdida da experiência sensível e do prazer desinteressado.

Influenciado por movimentos como o Pictorialismo, Esteticismo, Surrealismo e Fotografia Expandida, desenvolvo processos experimentais de fotografia e gravura onde me utilizo como pilar central a trivial, porém não obsoleta, ideia de “arte pela arte”. Para isso, o acaso possui função significativa, pois é através das intervenções gráficas inconscientes incorporadas às imagens que me é possível transcender a realidade característica do meio e criar atmosferas mais densas e expressivas, permitindo traduzir minhas obsessões de uma maneira mais abstrata, sem a necessidade de me vincular a qualquer tipo de razão funcional, moral ou cognitiva.

Ao espectador, proponho que a verdadeira contemplação deve ser íntima e silenciosa e que a experiência estética pode ser mais importante para uma obra de arte que seu poder de discussão. Tudo que tenho a oferecer é o revir de um momento de rever-se, onde não há nada a ser compreendido – apenas sentido ou não.

“Toda arte é completamente inútil”; esse texto também.

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