Segundas intenções – onde está a experiência estética?

Tente se imaginar na seguinte situação: em uma galeria, são apresentados, lado a lado, 2 quadros que têm como características principais um traço inocente e formas simples, desapegadas à realidade. A figura humana é modelada apenas com um círculo e um punhado de retas, e as cores, as mais básicas possíveis. A composição não é muito bem arranjada, sem nenhuma noção de perspectiva, e o motivo, o mais simplório possível: uma família num dia de sol, com direito a arco-íris e tudo mais.

Para o leigo, a primeira (e talvez única) reação possível é a repúdia, que o leva a acreditar que não existem mais bons artistas no mundo, pois seu filho de 10 anos é capaz de fazer algo muito melhor que aquilo. Já para aquele que é ligado às artes, pode se tratar de um quadro expressionista, onde a intenção é mostrar a tenra infância, da maneira mais realista possível, ou seja, tentando ressaltar o espírito da juventude através dos traços próprios daquela idade.

Não há informações sobre esses dois quadros. Não sabemos os títulos nem os autores; se foram feitos pela mesma pessoa ou se são peças distintas. Apenas estão lá, dispostos lado a lado em uma galeria. Diante desta situação, somos interrogados a respeito do valor artístico desses quadros: afinal, eles são Arte (1)?

Certamente, tudo seria mais fácil se pudéssemos recorrer a dados semióticos dos trabalhos. O título poderia nos abrir uma infinidade de possibilidades e cogitações a respeito da intenção do artista ao produzir aquele quadro. Por outro lado, ao recorrer ao nome do autor, poderia se identificar o estilo ao qual ele pertence e tudo seria mais lógico. Mas será que realmente isso é necessário? Se uma peça de arte não é capaz de se sustentar sozinha, de que serve a busca por uma linguagem própria mais conectada com o espírito do artista? Se realmente existe uma distinção do que é Arte, quem ditou estas regras?

Na verdade, quem dita essas regras é o próprio espectador, que desde criança é educado em um sistema textual, onde o trabalho com formas e cores é substituído totalmente (ou quase) por ditados e tabuadas. Nosso espírito é habituado a tentar compreender o visual, o que dificulta a nossa fruição estético-visual. Uma obra plástica é (ou deveria ser) feita para ser desfrutada em seu real campo de atuação, ou seja, o visual. O conceito pode vir acompanhado, mas como um adendo, uma forma complementar de assimilação, mas a carga emocional deve estar concentrada no próprio objeto.

Ao contemplarmos um objeto estético, nosso inconsciente automaticamente busca alguma assimilação com o próprio ser, causando empatia ou o desprezo. Ou seja, aquele objeto que mais se associar com a personalidade do espectador receberá uma maior empatia por parte deste. Um indivíduo pode estar diante de vários quadros com o mesmo tema e com os mesmos elementos, porém, fatalmente ele gostará mais de um determinado. Isto porque a disposição dos elementos, cores e formas de representação remetem a toda sua criação intelectual e emocional, criando-se um vínculo afetivo. Portanto, se somos capazes de apreciar um quadro unicamente pela sua beleza (2), significa que o seu conceito não é um dado fundamental. Todos somos capazes de gostar de uma bela obra sem conceito, porém o contrário não é verdadeiro.

Quando deslocamos o conceito para diante do estético, estamos impondo valores diferentes a um mesmo objeto, variando de acordo com o referencial adotado. Vejamos, por exemplo, as possibilidades de nosso exemplo citado no início deste artigo: se os dois quadros foram feitos por uma criança de 5 anos, eles não seriam considerados Arte, pois não há conceito por trás da obra. Se fossem feitos por um artista, a situação mudaria de plano. Se um deles fosse feito por uma criança e o outro por um artista, embora as soluções apresentadas sejam as mesmas, um seria Arte e o outro não.

Ora, se o valor artístico de uma obra não se mede por sua beleza, se a intenção se sobrepõe ao estético, de que vale a busca pelo aperfeiçoamento plástico? Será que um mesmo objeto muda para melhor ou pior dependendo do ponto de vista ao qual é observado? Com certeza não, assim como amar alguém não torna a pessoa amada mais bela.

Não seria possível aceitar a hipótese de que a única forma de arte que não possui autonomia seja a plástica, pois se aceitamos músicas sem letras, livros sem figuras ou (pasmem) até dança sem música, somos quase incapazes de apreciar um quadro sem auxílio teórico. Isso se deve à tênue linha que divide o plano artístico do real. É muito mais fácil aceitar a pluralidade da palavra ou a total abstração da música, pois elas em nada podem representar a imagem do real. Não é a toa que uma mesma pessoa pode não se importar com um personagem de desenho animado, mas dispara críticas contra a anatomia de um quadro menos real (3); é capaz de apreciar a composição de cores em uma roupa, mas diz que os quadros abstratos são “apenas garranchos”.

Não existe uma forma clara, ampla e distintiva de classificar o que é ou não Arte, pois seja qual for este método, fatalmente será injusto e excluirá algum tipo de trabalho que outros aceitarão como tal. O pensamento de que “Arte se predispõe a alguma intenção” já é falho em sua própria origem, pois todo ato artístico é movido por alguma intenção. O fator que leva uma criança a desenhar uma feliz pessoa em um dia ensolarado é a mesma que leva, e sempre levará, um artista a pintar um quadro: a necessidade artística. Por isto, este conceito acaba contradizendo sua própria finalidade.

Nunca houve na história da humanidade uma só civilização que não necessitasse de arte. Por isso cremos que a estética é um fator biológico, traço nato do ser humano, ao qual não podemos nos desassociar, talvez pelo fato de que ela seja uma das únicas alternativas de interferir no curso da natureza. Sendo assim, fazemos da forma como podemos e entendemos, para, quem sabe, perpetuar nossa existência na humanidade. (4)

Uma obra de Arte é independente e não possui vínculos com o seu autor. Qualquer dado que não pertença à própria obra cai na questão subjetiva, criando uma série de especulação que, na maioria das vezes, nada têm a ver com a proposta original. Adotar questões extrínsecas ao trabalho para poder qualificá-lo como Arte, é dizer em alto e bom tom que a própria obra é o menos importante. Não podemos mensurar o quanto ela foi planejada, qual foi o motivo pelo qual foi feita, se atendeu a certas expectativas ou se simplesmente foi feita na impulsividade de um momento de inspiração. Isso porque uma obra de Arte é autônoma, não carrega consigo a descrição detalhada, nem seu autor a tiracolo, porque ela fala por si mesma. De certa forma, é como as relações interpessoais: não é nem o nome, nem os pais, nem o histórico que vão fazer você tirar suas conclusões a respeito de alguém, mas, como esta pessoa interage com você e se ela atende às suas expectativas. Por melhores referências que uma pessoa tenha, nada substitui a relação que você terá com ela, seja boa ou catastrófica. Assim é com a arte: se não houver um desfrute estético desinteressado, de nada adianta saber sobre ela.

Por estes motivos, a Arte não deve ser considerada propriedade do objeto, mas do indivíduo. Ela se liga diretamente com a beleza, em seus moldes kantianos (5). Ou você gosta ou não. Toda diferença está no desenvolvimento contemplativo do espectador. Isso não quer dizer que haja um tipo de Arte melhor que outra, apenas são divididas por um rio de cultura e personalidade inerente a cada pessoa. Por mais que os gostos se pareçam, o verdadeiro sentir estético (6) é diferente para cada um. Não é a vida nem o autor que a arte representa, pois ela só pode refletir o espectador. Ela é como um espelho, e vai refletir de uma forma diferente cada pessoa e cada momento daquele que o contemplar.

Nosso gosto, assim como nosso senso artístico, não melhora nem evolui. Eles apenas se transformam e se adequam a uma determinada formação intelectual. Quando somos crianças, temos gostos próprios à nossa idade, assim como ao longo de nossa vida. Quanto mais vivemos, mais aprendemos e mais mudamos de gostos. Assim é com comida, amigos, amores e, enfim, na arte. Um espectador vai ter diferentes pontos de vista sobre uma mesma obra em momentos diferentes da vida. Isso não faz com que ela seja mais ou menos bela, pois é imutável. Sua personalidade contempladora que irá ditar as regras dessa relação. O que antes era desprezível, pode ser considerado belo ou vice-versa. Isso nos vem provar de uma forma integral que a Arte não pode ser determinada pelo objeto, mas por quem a desfruta.

Diante desses fatos, não temos autonomia para ditar uma regra geral que diga o que é ou não Arte. Admiramos aquilo que nos espelha e não podemos exigir a mesma compreensão estética de duas pessoas com históricos de vida completamente diferentes, pois transparecemos aquilo que somos.

Não é intenção, porém, colocar em pé de igualdade o desenho de uma criança aos trabalhos de artistas profissionais. Entretanto, não há como dizer, de uma forma universal, que este tipo de desenho não seja Arte, pois, dentro de seu campo de conhecimento, a criança também cumpre o seu papel. Se não for desta forma, então estaremos hierarquizando a Arte como “melhor” ou “pior”, já que um bom desenho infantil seria “pior” do que um péssimo desenho rico em conceitos. Ou seja, aquele que tem mais significado é o mais artístico.

Para se desfrutar a Arte, basta apenas sentir. É apenas deixar que o inconsciente trabalhe, para que se desfrute, em todas as instâncias, o que o real prazer estético pode oferecer. Ela é aquilo que toca, nada mais.

(1) Considero neste artigo a palavra Arte com inicial maiúscula para designar o tipo de classificação valorativa, e o termo arte com inicial minúscula como valor classificativo. Explico esta designação no artigo “arte para designers em 3 atos”.
(2) O termo beleza é aqui usado como representação do juízo de gosto, diferente do “belo” greco-romano. È tudo aquilo que o indivíduo acha bonito.
(3) nas palavras de E.H Gombrich: “O camundongo Mickey não se parece muito com um camundongo verdadeiro; no entanto, as pessoas não escrevem cartas indignadas aos jornais criticando o apêndice caudal do Mickey. (…) Mas se um artista moderno desenha alguma coisa à sua maneira, está sujeito a que o considerem um trapalhão, incapaz de fazer coisa melhor.” (Gombrich, E.H. A história da Arte, (trad. Álvaro Cabral), Guanabara Koogan S.A, 1993, p. 8)
(4) A famosa frase “todo homem deve, ao menos, ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro” é um retrato fiel desta hipótese. Conhecida em todo mundo, ela sugere que todo ser humano se perpetue perante os séculos através da interferência na natureza. O termo “escrever um livro” é uma referência ao fazer artístico, próprio do ser humano e que a natureza não prevê.
(5) “Kant, com efeito, propõe primeiramente uma teoria do juízo estético: com que direito posso julgar que uma coisa é bela? O critério é o prazer que ela desperta em mim: prazer desinteressado, ligado só à forma do objeto e não, como no assentimento, ao seu conteúdo. O belo é, portanto, aquilo que agrada. Mas Kant acrescenta: universalmente sem conceito. “Sem conceito” quer dizer que não há idéia do belo, isto é, um modelo que possa orientar meu juízo e servir de padrão. O belo só se encontra em objetos sensíveis e só a sensibilidade é o juiz”
“Procurar um princípio do gosto que dê através de conceitos determinados, um conceito universal do gosto, é um trabalho estéril, visto que aquilo que se procura é impossível e contraditório em si” (Kant, Immanuel – Critique du Jugement, § 17)
(6) “A experiência estética, pelo contrário, é essencialmente <<final>>, isto é, o seu fim reside em considerar a situação de pertença de modo mais amplo, mais rico e intenso, fora dos mecanismos de rotina e sem se recair numa nova habitudinariedade mecânica. O seu objetivo seria introduzir na terra um estado paradisíaco onde se possam viver os vários aspectos do mundo, exatamente , com a máxima intensidade, sem a preocupação de economizar energias. Poderia ser também a descoberta do Paraíso Terrestre, vivido na primeira infância, quando o impulso para o prazer dos sentidos não encontra repressões e censuras pela obrigação de prestar contas com as exigências práticas sociais”. (Barilli, Renato. Curso de Estética (trad. Isabel Teresa Santos), Lisboa, Estampa, 1989, p.33-34)

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FROTA, Rafael. Segundas intenções: onde está a experiência estética? Aguarrás, vol. 4, n. 20. ISSN 1980-7767. Rio de Janeiro, JUL/AGO 2009.

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